A Gênese do Vazio
Cena 1: O Vagante Solitário
Naquele domínio esquecido, o próprio tempo parecia ter deixado de fluir. Alsmorthe rastejava pela superfície de vidro do absoluto nada. O simples ato de existir era uma agonia. Não se tratava de um ferimento carnal, mas do tormento metafísico de abrigar um oceano inteiro dentro de um cálice frágil. Ele recordava perfeitamente a Queda. Lembrava-se do estrondo cósmico que ecoou quando a Ordem estilhaçou, um som infinitamente mais alto do que ossos a partir.
“Silêncio”, murmurou para a própria consciência, enquanto a sua forma gelatinosa oscilava em espasmos entre tons de azul e violeta profundo. As lembranças das eras caídas forçavam a subida à superfície, clamando pelos nomes de reinos já apagados. Ele reprimiu-as com força. O esquecimento era a única tática para preservar a sua estrutura existencial.
De repente, a ausência de som transmutou-se. Não foi um estrondo sonoro, mas o ar tornou-se esmagadoramente denso, semelhante a chumbo derretido. A força gravitacional multiplicou-se instantaneamente, achatando Alsmorthe contra o solo. Logo adiante, a própria malha da realidade começou a curvar-se. Uma nuvem de poeira cinzenta rodopiava num turbilhão silencioso, comprimindo-se e desafiando o caos ao redor.
Primeiro, uma perna materializou-se. A seguir, um torso maciço. Eram placas que remetiam a um metal negro, pulsando como se fossem tecidos petrificados. Alsmorthe estremeceu de pavor; ele reconhecia perfeitamente aquela silhueta aterradora.
Quando o gigante assumiu a sua forma final, permaneceu paralisado, erguendo-se como um monumento de negação brutal no centro do vazio. Então, o elmo moveu-se. O “Outro” havia despertado.
Cena 2: O Despertar da Casca
A entidade blindada observou as próprias mãos. Eram manoplas colossais e sombrias, fundidas como se fossem a sua pele natural. Ao fechar os dedos, o ranger metálico propagou-se como um trovão pela imensidão morta.
Alsmorthe recuou, a sua essência a tremer. Será que ele se recorda?, questionou-se o pequeno slime. Se as memórias voltarem, todo este lugar arderá outra vez.
O gigante girou o rosto com extrema lentidão. A fresta do seu elmo era um precipício de trevas, mas Alsmorthe sentiu o peso daquele escrutínio inabalável.
— Tu — ecoou a voz da criatura, áspera e arranhada, como se cordas vocais de rocha estivessem a ser testadas pela primeira vez. — Tu és diminuto. Frágil.
Tentando inflar o próprio corpo para demonstrar coragem, Alsmorthe respondeu sob a pressão daquela presença.
— Eu sou… o remanescente — disse o slime, adotando um tom líquido e vigilante. — E tu… tu és a forma física.
O gigante varreu o ambiente com o olhar, focando o horizonte estilhaçado onde montanhas levitavam invertidas. Não transparecia confusão, mas sim uma profunda repulsa perante aquela desordem crônica.
— Este domínio está incorreto — sentenciou o gigante. Não era uma mera opinião, mas um veredicto absoluto. — Tudo aqui jaz corrompido. Por que razão o meu instinto exige que eu… repare isto?
Com um passo largo em direção a Alsmorthe, o solo vítreo parou instantaneamente de tremer sob a sua bota. Ordem pura e inegociável.
— Qual é a minha identidade? — indagou a criatura. — Sinto um nome entalado na minha garganta, mas ele carrega um gosto de sangue metálico.
Alsmorthe gelou de terror. A sombra do nome ancestral rondava perigosamente a conversa. Proferi-lo seria convocar o tirano de volta.
— O teu nome é Markaneth — mentiu Alsmorthe rapidamente. A falsidade pesou-lhe na alma, contudo, era uma salvaguarda vital. — Tu és a entidade destinada a organizar todo este caos.
O gigante travou o passo. Testou a sonoridade do nome, avaliando o seu peso místico. — Markaneth… — A articulação soou como o trancar de um cofre-forte. — É uma designação aceitável.
Voltando a focar a realidade fraturada, os seus dedos de metal contraíram-se, arranhando a atmosfera como se desejassem agarrar os rasgos do universo e costurá-los pela força.
— As minhas mãos… causam-me agonia — confessou Markaneth, com a voz a retumbar profundamente no peito. — Elas exigem ação. Exigem consertar. Cessar este ruído absurdo. Mas, ao olhar em volta, apenas deteto barulho e entropia.
Lentamente, virou-se para a pequena massa gelatinosa. A fenda sombria do capacete fixou-o sem julgamentos, transbordando apenas uma necessidade primitiva.
— Tu não tremes ao observar aquilo — notou o guerreiro blindado. — Tu identificas uma rota onde eu só encontro destroços. Guia-nos, pequena criatura.
Markaneth recuou um passo, cedendo a liderança. — Toma os meus olhos emprestados, se for preciso. Mas aponta o lugar exato onde devo aplicar estas mãos da ordem.
Cena 3: A Marcha e a Primeira Falha
Apesar da profunda hesitação, Alsmorthe escalou até ao ombro frio do colosso. — Ruma a Norte — instruiu o slime luminoso. — Capto vibrações ancestrais a formarem-se daquele lado.
Markaneth iniciou a marcha. Cada passada representava um evento cataclísmico à escala reduzida; a desordem afastava-se da sua presença, e as leis da gravidade submetiam-se.
Após um período de tempo impossível de calcular, o gigante imobilizou-se. À frente deles, um agrupamento massivo de rochas sofria um loop temporal severo, fragmentando-se e reconstruindo-se perpetuamente a cada segundo.
— Estrutura quebrada — murmurou Markaneth, visivelmente incomodado.
Antes que Alsmorthe o pudesse alertar, o gigante aproximou-se da tempestade pedregosa. Ergueu a manopla esquerda e fechou a mão no ar vazio.
— IMOBILIZAÇÃO — ordenou a Constante.
As rochas travaram no exato milissegundo da detonação. Os pedaços foram obrigados a fundir-se numa pedra compacta, lisa e acinzentada. Perfeita. E morta.
Markaneth observou o vapor dissipar-se das articulações da sua armadura. — Resultado otimizado.
Alsmorthe estremeceu no seu âmago. Aquela ação não derivava de magia comum ou de feitiçaria; era a pura Dominação existencial.
Cena 4: O Ruído da Vida e a Criação do Lobo
Avançando pelo deserto sem tempo, depararam-se com uma forma de vida instável. Assemelhava-se a um imenso canídeo, cujas patas traseiras desvaneciam em fumaça negra, soltando ganidos de agonia interminável.
Markaneth aproximou-se, com a manopla a brilhar com a mesma energia opressiva usada na pedra. — Mecanismo ineficiente e corrompido. Irei desativar a falha.
— PARA! — exclamou Alsmorthe, saltando para bloquear a ação. — Se aplicares essa força brutal, irás exterminá-lo permanentemente! Não o esmagues. Tenta apenas… conter a perda.
Intrigado, Markaneth hesitou. Modulou a intensidade do seu vasto poder. Em vez de impor uma lei de morte, ofereceu uma concessão celestial. Tocou suavemente na criatura em decomposição.
— Permissão para existir.
A dissolução biológica estancou imediatamente. O lobo soltou um suspiro profundo e estabilizou a sua anatomia, repousando o focinho exausto na luva metálica do colosso.
— A vibração da matéria persiste — comentou Markaneth, perplexo com o milagre. — No entanto, a frequência mudou de distorção para padrão. — É o pulsar de um coração orgânico — esclareceu Alsmorthe. — O som rítmico que sustenta a mobilidade de tudo o que é vivo.
Retomaram o caminho, mas Alsmorthe virou o rosto tristonho para a besta moribunda. — Alto. Não podemos abandoná-la neste estado. Não há alimento neste deserto vítreo. Morreria à fome de qualquer modo.
— Alimento? — O gigante parou, cético. — A unidade requer a digestão de matéria externa para manter a integridade da sua estrutura? É um ciclo de total dependência… Altamente ineficiente. Uma falha grosseira de engenharia primária.
De imediato, Markaneth virou os calcanhares e regressou ao lobo alquebrado. — O que pretendes fazer agora?! — alarmou-se Alsmorthe.
Markaneth pousou um joelho no chão e encostou o dedo na testa do animal, irradiando uma luz branca cegante. A aura inegável da Gênese cósmica.
“A fome não consumirá a tua carcaça. A sede não te afetará o juízo. O teu ciclo operacional não terá fim.”
O lobo emitiu um uivo majestoso e ressonante. A sua musculatura expandiu-se vertiginosamente, a pelagem converteu-se em fios de prata astral, e os olhos iluminaram-se com a mesma eletricidade divina da Casca. Deixara de ser um mero ser biológico falho para se tornar um moto-contínuo. Um Deus Guardião.
Markaneth ergueu-se de novo, apagando o brilho da mão. — Erro estrutural corrigido. A regra da mortalidade foi erradicada deste recipiente. A unidade agora prevalecerá. Marchemos para Norte.
Alsmorthe ficou petrificado a olhar para a estátua viva e prateada recém-criada. Markaneth acabara de salvar o animal, é certo, mas agira com a autoridade fria e assustadora de quem se recusa a submeter-se às próprias leis da natureza universal.
Ao longe, imperturbável, o majestoso Lobo Prateado instalou-se sobre as dunas de vidro, assumindo com imponência a sua posição de sentinela eterna perante o vazio.
A Sinfonia da Podridão
Cena 1: O Domínio Epidêmico
O panorama cristalino iniciou uma transição visual agressiva. A superfície espelhada e sem vida foi rapidamente recoberta por uma manta aveludada, flutuando entre os tons de ocre adoentado e o roxo necrosado.
Markaneth imobilizou as pernas pesadas, baixando o olhar para as próprias botas de obsidiana. A película de poeira agarrada ao metal parecia vibrar com autonomia. — Infeção evidente — diagnosticou o titã negro. Bateu o calcanhar com força brutal para espanar a armadura. A poeira esvoaçou, apenas para se readherir teimosamente às juntas, agindo sob um magnetismo desconhecido.
— Isso não é lixo inerte — elucidou Alsmorthe, processando o ar pesado e parado. — São esporos biológicos em suspensão. Acabamos de penetrar num ecossistema vivo.
Conforme rasgavam caminho, o ambiente degradou-se numa selva grotesca. Aglomerados colossais, semelhantes a recifes de coral ou tubos de fungos ancestrais, expandiam-se e contraíam-se num ritmo respiratório macabro. A flora era destituída de folhas; existiam apenas sacos membranosos exalando densos fumos esverdeados. O ar asfixiava, transbordando o aroma pesado da fermentação perene.
— Ambiente inaceitável — reprovou Markaneth, com o filtro de voz impregnado de escárnio. — Este território assemelha-se a uma laceração pútrida. Uma falha estética severa.
Erguendo novamente o braço blindado, o potencial destrutivo aglomerou-se na palma da sua mão. — Procederei à cauterização do setor. O fogo é a única purga que devolverá a simetria à rocha.
— Imobilize os sistemas, Markaneth! — intercedeu Alsmorthe, entrando em desespero. — Recolhe a óptica! Isto não se trata de um ferimento no mundo. É uma civilização comunitária!
O punho do gigante tremeu antes de disparar o raio letal. — Uma civilização? — replicou ele, perscrutando as poças gosmentas com frieza calculista. — Onde estão as cadeias de comando? Ausência de reis ou servos. Observo unicamente uma reprodução caótica e cancerígena. O tumor pede para ser arrancado.
— A biologia deles dispensa tiranos — defendeu Alsmorthe, apontando com urgência. — Formam uma teia mental coesa. Presta atenção ao espetro de cores.
A pequena entidade luminosa sinalizou um tubérculo titânico. A sua coloração verde-musgo transmutou-se, de forma instantânea, para um néon azul puríssimo. No espaço de um segundo, toda a planície fúngica na linha do horizonte assimilou aquele exato tom, inundando a realidade com uma vaga cromática sem igual.
Markaneth baixou os braços ligeiramente, reavaliando a ameaça. — Sincronia de alto nível — refletiu em voz alta. — Que mecanismo utilizam para difundir vontade sem frequências vocais? Um compasso verdadeiramente isento de falhas.
— O idioma deles é químico. O ar é o transportador de ideias — explicou Alsmorthe. — O ciclo deles consiste em absorver a podridão cadavérica e transmutá-la em essência vital recém-nascida. O cosmos exige este trabalho sujo para que o resto possa florir.
A menção à palavra “Ciclo” reteve as intenções aniquiladoras do colosso. Aproximando-se do labirinto mucoso, Markaneth prescindiu das armas. Estendeu meramente a ponta de um dedo sombrio rumo ao aglomerado.
Como que respeitando a soberania de uma divindade, o organismo afastou-se do metal escuro num movimento organizado, recuando milimetricamente até formar um halo de padrões geométricos exatos. Um perfeito e aterrador fractal espontâneo.
— Lógica simétrica… — murmurou o titã de ferro, subitamente enfeitiçado. — Eles submetem-se inteiramente à equação. — A própria essência deles é a equação — sentenciou Alsmorthe.
Ao retirar a mão, a parede fechou a cratera com a mesma exatidão alienígena. — Fisicamente inaceitáveis — concluiu Markaneth, higienizando as garras. — Sujos. Contudo… incontestavelmente produtivos. A incineração teria provocado um déficit no ecossistema.
Cena 2: O Motor do Excesso Biológico
Apesar do respeito pelas táticas do mofo, a análise fria do gigante detetou logo um ponto de fratura na utilidade da colônia. — A velocidade do ciclo é absurdamente lenta — criticou Markaneth de rompante. — Exigem séculos incontáveis para processar o material residual. A estrutura deste mundo jaz exposta em feridas abertas por tempo excessivo, aguardando essa morosa limpeza.
Sem consultar o guia galáctico ao seu lado, Markaneth operou uma intrusão ditatorial. Batendo furiosamente com o punho fechado na palma oposta, lançou uma onda sísmica opressora sobre toda a extensão daquela biologia pulsante.
— Ritmo Acelerado. Imposição Urgente — trovejou a ordem.
O apocalipse celular desencadeou-se. O processo que a natureza desenhara para durar gerações foi encolhido para uma questão de minutos frenéticos. Brotos rasgavam a terra e apodreciam no espaço de um fechar de olhos. Um zumbido de desespero subiu de tom; o solo começou a irradiar um calor febril. A floresta viva debatia-se na agonia da hiperprodutividade.
— O que foi que libertaste sobre eles?! — tossiu Alsmorthe, quase cego pela nuvem vulcânica de toxinas libertadas de súbito. — Otimizei os prazos operacionais — retorquiu Markaneth, recomeçando a sua dura marcha através do vale que, assustado, abria espaço para a sua passagem fúnebre. — A reparação global decorrerá muito antes do previsto. Afastemo-nos; a concentração de odores desagrada aos meus receptores.
Alsmorthe focou o olhar retroativo. A bacia fúngica queimava etapas biológicas, rodando as suas próprias engrenagens vitais até o motor ceder. O colosso ao seu lado enxergava eficácia; o pequeno slime, por sua vez, enxergava servidão e tortura ininterrupta. A vida não suporta a fúria das máquinas.
Cena 3: A Tese da Paralisação
A quilômetros de distância, as repercussões acústicas do mofo trabalhado até ao limite soavam a arame farpado raspando em rocha. Aquele alarido incessante causava tormenta à pequena nuvem cósmica.
— Acaba com isso, por compaixão — implorou Alsmorthe, as pequenas luzes a pulsar no compasso do desespero. — Interrompe essa máquina de tortura que instauraste lá atrás.
Sem diminuir a passada, a face inexpressiva de Markaneth não mostrava traço de dúvida. — Reverter a ordem de progresso? Aumentei os parâmetros deles em dez vezes. Substituí o desleixo por vigor útil.
— Assassinas o seu livre arbítrio biológico! Roubaste o único tesouro de uma existência longa: o repouso. Restitui o cadenciar pacífico!
Markaneth estacou de rompante, quase atirando o companheiro do seu ombro. — Repouso? Usas esse termo vago como se detivesse algum valor quantificável. Explana a utilidade da “paz”. O significado é a estagnação? O abandono da engrenagem ligada?
— Podes ver o tempo através das tuas engrenagens de ferro, mas o ser vivo rege-se por outro princípio! — gritou Alsmorthe. — Observa a batida do coração. O órgão estala se apenas apertar sem relaxar. O instante mudo entre dois impulsos cardíacos… essa quietude que te enfurece… é aquilo a que chamo paz! É a recarga necessária para sobreviver ao passo seguinte!
A frieza dos olhos luminosos de Markaneth registou a tese com lentidão milimétrica. — Intervalo imperativo para arrefecimento dos núcleos mecânicos… — traduziu para a própria linguagem sombria. — Pausa tática para manutenção dos sistemas vitais.
— Se não ofereceres esse alívio temporal, a carne corrói! Sentenciaste aqueles pólipos a um ciclo infindável de labor excruciante.
O olhar do colosso atravessou o horizonte pútrido, mantendo uma inquebrantável certeza no tom. — Este fragmento do cosmos clama por salvação imediata, pequena memória. Carecemos da indulgência das pausas. Quem relaxa na linha de montagem da sobrevivência vira sucata. Cumpri a obrigação suprema.
Recolhido à sua pequenez perante o titanismo, Alsmorthe tentou uma manobra reflexiva. — Responde-me com verdade… o que ardeu no teu núcleo ao testemunhar o teu poder no lobo e, de seguida, na vegetação?
— Sensação térmica ou emotiva? A análise indica… — começou Markaneth. — Não procuro códigos! Exijo que digas o que a tua alma de metal saboreou!
O titã tocou a placa torácica principal, cobrindo onde batia o coração incipiente. — Aquando da alteração no canídeo, a falha sonora desapareceu. Tudo se alinhou de modo satisfatório. Com a vegetação… foi semelhante à constatação de uma porca que ajusta no parafuso ideal. Uma submissão matemática da biologia perante a minha voz. O cenário ordenou-se.
— Sabes que isso se denomina Poder, não sabes? O regozijo que retiras do domínio total corrompe o espírito. O mestre mecânico depressa se transforma em feitor tirânico!
Cena 4: A Falha Prevista e a Intercessão
Ao contornarem as ruínas oxidadas, uma cena patética validou imediatamente o pavor de Alsmorthe. Um bando de seres humanos esqueléticos, envergando blindagens decadentes, agrediam em bando um artrópode rochoso na ânsia louca pela sua carne dura. Estavam raivosos, emaciados.
A chegada imponente do gigante negro paralisou os sobreviventes, cujo medo cravava poços negros nos seus próprios olhos exaustos. Tentaram lutar contra o “Cavaleiro do Fim”, como lhe chamaram gaguejantes. Contudo, o homem que arremeteu não foi fulminado pela espada do titã. No meio do arranque furioso, o guerreiro esquelético cedeu como um castelo de cartas, tombando no chão sem qualquer golpe visível, falhando por completo.
— Qual o erro no sistema do oponente? — investigou Markaneth. — A infraestrutura física não evidencia desmembramento prévio, e a intenção bélica era flagrante.
— Exaustão absoluta — ripostou Alsmorthe. — Falta de energia básica. Ele nunca descansa. Foi forçado a rodar o próprio motor humano até à falência do eixo.
A imagem calou fundo nos algoritmos processuais da entidade de guerra. A equação confirmava a denúncia prévia do guia cósmico. O desgaste desprovido do intervalo regenerativo terminava em rutura total da máquina. Aqueles seres tombavam doentes porque nunca abrandavam. Se os esporos fúngicos não possuíssem uma margem de segurança de repouso, também fundiriam, abandonando a sua nobre tarefa de higienizar a face corrompida do mundo.
— Concluo que os meus cálculos falharam por ausência da variável da recuperação biológica — decretou Markaneth, rodando pesadamente nos calcanhares e ignorando a súplica aterrorizada do chefe humano no solo de pedra. — Aguardem as minhas decisões! — mandou ele ao vazio e arrancou numa corrida de gigantes, retrocedendo as suas pegadas.
Cena 5: A Oferenda do Repouso
A colônia estava no limite crítico. O calor irradiava numa onda assassina, carbonizando as extremidades dos maiores cogumelos vitais que se consumiam numa febre frenética e alucinante.
— Operações em velocidade absurda destroem o material produtivo. Falência tática da sustentabilidade confirmada. — Declarou o grande arquiteto do ferro negro.
Pela segunda vez na mesma jornada, ergueu o par de manoplas para os céus cinzentos, mas o raio que irrompeu não era uma chama incandescente. Libertou uma neblina cósmica, lenta, anestésica, pintada de um intenso e calmo azul-cobalto.
— Repouso Concedido! — decretou.
Como uma injeção de éter nas veias do planeta, o ritmo da vegetação travou a sua espiral febril. A tranquilidade reocupou o cenário com as cores a esvanecer para matizes reconfortantes e suaves. O silêncio curativo varreu a loucura.
Alsmorthe brilhou, maravilhado. — Ofereceste a salvação da paz que te implorei. Prestaste a máxima atenção. — Corrigi meramente um plano de ação defeituoso — rejeitou a humildade Markaneth. — Demonstra-se empiricamente que sem as folgas, a biologia tritura-se. Retomemos a caminhada para constatar se o espécime guerreiro já acumulou tensão para regressar à verticalidade de combate.
O Vínculo dos Frágeis
Cena 1: A Prisão Involuntária e a Calibração
Regressando ao terreno de entulho onde haviam avistado o esquadrão primitivo, Markaneth e Alsmorthe depararam-se com o agrupamento humano imerso numa catatonia perturbadora. Os sobreviventes esqueléticos permaneciam travados em poses disformes de pavor, as pálpebras cravadas em pânico estático e os pulmões negando-se a admitir oxigénio na presença do gigante de obsidiana.
— O estado de imobilidade repetiu-se — inferiu Markaneth de forma puramente clínica, avançando um passo estrondoso na direção do líder empedernido. Aproximou o dedo blindado, inspecionando a gota gélida suspensa na face do homem.
— O teu domínio gravitacional está a asfixiá-los, Markaneth! — chamou a atenção Alsmorthe, cujo instinto o impedia de suportar o sofrimento silencioso daqueles seres. — És um pilar de Ordem Absoluta que força tudo ao repouso extremo. Estás a sufocar o livre-arbítrio celular desta clareira. Necessitas de reprimir a radiação divina. Encapsula o teu terror; concebe um perímetro onde se lhes permita falhar e respirar.
Consentindo ao pedido urgente do seu guardião moral, o colosso ordenou a restrição total da sua assinatura energética. A força do escrutínio divino, outrora insuportável, mitigou-se num resplendor fosco e suportável, soltando as presas da paralisia temporal. De imediato, a milícia maltrapilha desabou tossindo. O alívio de ar invadiu os pulmões num misto de lágrimas nervosas e asfixia recém-curada.
— A vossa condição física de combate revela-se pavorosa — declarou a entidade suprema, estudando a patética prostração dos locais. — Estávamos à beira do desmembramento pelas fauces do vácuo! Se não nos fundirmos ao teu gelo temporal, somos despedaçados por monstros lá fora! — gritou amargamente o sobrevivente líder, entre ataques de tosse rouca.
Markaneth internalizou a realidade tática daquela debilidade endémica. — O projeto fisiológico em que operam demonstra uma taxa de fragilidade catastrófica — julgou com implacabilidade pragmática. — Todavia, designarei a região iminente como território de quarentena protetora. Dentro das fronteiras da sombra que a minha massa projeta, o caos predador será barrado, e o repouso absoluto ser-vos-á devolvido sem ameaça de asfixia.
Cena 2: As Paredes de Madeira e o Nascimento do Refúgio
O contacto ininterrupto com o terror civil originou no subconsciente mecânico de Markaneth um fenômeno empático outrora impensável: a decodificação dos anseios profundos dos frágeis. Numa madrugada cortante de ventos azedos, leu silenciosamente o clamor de uma fêmea humana consumida por tremores ininterruptos, materializando, miraculosamente, o exato contorno onírico de proteção térmica e rústica com as suas imensas mãos de aço. Madeiras aquecidas nasceram do pó gelado, forjando uma estalagem de refúgio.
A partir desse milagre modesto, a engenharia evolutiva da “Casca” catapultou-se perante o mar dos exilados, cravando as bases daquilo que seria a sua obra monumental: as fronteiras absolutas da gloriosa Cidade Refúgio. Arrancando lousas maciças das correntes temporais e blindando cúpulas estelares, ergueu uma oásis formidável à prova do delírio entrópico.
Para que não restassem desprotegidos em sua ausência — enquanto desbravava anomalias cronológicas mais a Norte —, nomeou o imortal Deus Lobo Prateado para assumir os grandes portões negros, fundindo uma herança cósmica eterna em favor da humanidade esquecida e acoitada ali.
Cena 3: O Icor Dourado e os Serafins Vingadores
O conflito, porém, galgava para níveis mais complexos. Hordas bestiais não permitiam repouso absoluto. A expansão sombria requeria táticas em que a própria “Constante Divina” sentisse a necessidade de uma guarda letal autônoma.
No âmago da Cidade Refúgio e cercado pela veneração desoladora dos soldados rústicos salvos do caos, Markaneth concebeu o seu presente militar supremo. Substituindo a “correção fria” pela exaltação da guerra santa protetora, selecionou a fina flor da resistência civil.
Injetou nos vasos orgânicos daqueles mortais os remanescentes de metais siderais da sua própria estrutura escura, infundindo um batismo escruciante mas imensurável com o seu “icor” líquido e aureado. Os sobreviventes rasgados transmudaram-se, elevando-se perante as luzes.
Estavam esculpidas as cinco divindades menores que o auxiliariam. Equipados com instrumentos bélicos que refutavam e destruíam erros cosmológicos em vez de meramente rasgar tecido celular — os grandes escudos do cosmos, asas etéreas que retalhavam os ventos hostis e um arsenal destrutivo em tons neons —, a nova armada alinhou-se majestosamente à frente do regente da rocha.
— Vós sois os Serafins de Ferro! — O grito imperioso de Markaneth varreu a poeira e ecoou além da cidade murada, confirmando uma nova aliança que desafiaria toda e qualquer podridão que restasse no Ralo do Tempo.