DESCOLAMENTO DE MATÉRIA 2024.11.06 | 14:39

A Criança de Vermelho e os Mímicos Fugitivos

A atmosfera onírica foi novamente ditada pela sintaxe densa da Ayahuasca. Mas, dessa vez, a experiência veio com uma alteração drástica de percepção: ocorreu um descolamento. Eu estava fora do meu próprio corpo, observando o tecido da realidade de uma perspectiva distante e etérea, como uma câmera flutuando no vácuo.

Lembro de ter chegado ao meu território base, vindo de coordenadas que a minha memória apagou. A desorientação foi imediata, pois havia uma anomalia parada bem no meio do salão: uma criança. Ela usava uma camisa vermelha de manga longa. A lógica visual não fazia sentido, mas a intuição neural do sonho era absoluta: de alguma forma inexplicável, eu sabia que aquela garotinha era a minha mãe.

A Falha de Sincronia Sensorial

Quando dei um passo na direção dela, a realidade ao redor começou a se distorcer e derreter, como código corrompido. A anomalia não me assustou; eu estava totalmente vidrado na presença daquela versão infantil. Foi então que vi a versão adulta dela — do presente — descendo as escadas.

Apontei e avisei: “Mãe, tem você criança aqui.”

Ela olhou na mesma direção, mas seus olhos passavam direto. Ela não enxergava a garota de vermelho, tampouco compreendia o que eu estava tentando relatar. O peso daquela falha de comunicação, o fato de ela não conseguir ver a própria inocência ali parada, me atingiu como um golpe físico. Uma vontade absurda e inexplicável de chorar tomou conta do meu estado etéreo.

A textura do sonho degradou para um nível ainda mais surreal. A assimetria sensorial tornou-se total: a versão adulta deixou de me enxergar fisicamente, conseguindo apenas captar a frequência da minha voz.

Presos nessa falha, começamos a procurar pelo meu corpo físico, que estava perdido pela casa. Na minha visão de primeira pessoa, eu tinha a certeza de que estava no portão. Mas, para ela, que narrava o que via, o meu corpo estava no quarto, completamente estático, de frente para uma parede, travado em uma posição bizarra. A sensação corporal que me dominava simulava o peso do ritual: eu sentia a densidade da minha matéria, mas estava cirurgicamente isolado dela.

A Extração Yakuza e a Caçada

O cenário sofreu um corte abrupto. Saí de casa e a narrativa assumiu uma estética de submundo cinematográfico. Encontrei um aliado antigo na rua e, logo em seguida, fomos interceptados por um carro modificado, exalando a aura de um sindicato criminoso japonês — a verdadeira Yakuza.

Curiosamente, não havia rosto no volante. Havia três homens desconhecidos e carrancudos espalhados pelos bancos da frente. Meu aliado pulou para dentro do porta-malas aberto. Outro conhecido surgiu e fez o mesmo. Como não havia mais espaço, acabei ficando pendurado do lado de fora, espremido, ancorando meu peso com toda a força entre a porta traseira e o porta-malas.

O interior do veículo era um caos de agulhas e fluidos: eles estavam fazendo tatuagens uns nos outros com o carro em movimento. A extração durou pouco; fomos sumariamente expulsos e largados no meio de uma rota desconhecida.

O corte seguinte me jogou diretamente na quadra central da cidade. Foi ali que o diagnóstico do meu próprio corpo mudou. Eu me tornara uma espécie de anomalia mimética: conseguia clonar as feições e a biomassa das pessoas ao meu redor de forma quase involuntária.

O Vírus do Mimetismo

Notei que não estava sozinho no vetor. Duas pessoas apareceram ao meu lado, operando na mesma frequência. Uma delas possuía a exata mesma habilidade de imitar os outros. Tudo parecia sob controle, até que essa entidade decidiu clonar o rosto e o corpo da minha parceira — o meu elo mais importante.

A repulsa foi violenta e imediata.

Eu soube no mesmo milissegundo que aquela não era ela. Ver um impostor vestindo a pele, roubando a arquitetura óssea e os trejeitos da pessoa que amo causou um curto-circuito na minha mente.

Fiquei furioso. Avancei e exigi, com brutalidade, que a anomalia parasse de simular a forma dela imediatamente.

O ambiente colapsou em paranoia. A partir daquele confronto, os protocolos mudaram: estávamos sendo ativamente caçados. Tínhamos virado fugitivos, e a nossa principal diretriz de sobrevivência era manter nossos “poderes” de mimetismo estritamente ocultos para não acionar os radares de quem quer que estivesse atrás de nós.

Mas a mesma entidade que havia me enojado ao imitar minha parceira revelou-se uma falha crítica de segurança. Ela era imprudente. Usava a mutação de biomassa a todo momento, mudando de forma com frequência e sem nenhuma necessidade, ignorando completamente a letalidade da nossa situação. A tensão do esconderijo, somada ao uso inconsequente daquelas transformações que ameaçavam nos expor a qualquer segundo, me empurrou para um estado de alerta e pânico insuportável, forçando o encerramento do sonho antes do meu despertar.