PESADELO PSICOLÓGICO 2026.09.18 | 07:41

A Maçã de Areia e o Feroz Leão

Tudo começou na fronteira turva e perigosa entre a vigília e o sono. O quarto estava mergulhado nas sombras espessas da madrugada quando os meus olhos captaram uma anomalia: havia uma figura bizarra, inominável, agachada no canto escuro do cômodo.

O instinto primordial ditava que eu gritasse por fuga ou entrasse em estado de alerta absoluto. Mas o que acontece quando a exaustão da mente é mais pesada que o instinto de sobrevivência? O cansaço do meu corpo era tão profundo que anestesiava até mesmo o medo. Eu apenas fitei aquela coisa que espreitava na escuridão, fechei os olhos em um ato de pura rendição e deixei-me afundar, arrastando aquele peso silencioso comigo para os abismos do subconsciente.

Quando o cenário do sonho finalmente se materializou, a lembrança da criatura no quarto já havia se tornado opaca. No entanto, um sentimento emergiu nítido, cortante e doloroso: o distanciamento da minha parceira.


O Sacrifício da Comunicação

O ar entre nós parecia denso, bloqueado por uma barreira invisível. O celular dela apresentava um defeito crítico e eu, numa tentativa desesperada de proteger a nossa conexão e restaurar a normalidade, oferecia-me para consertá-lo. Mas ela recusava veementemente. Preferia as próprias soluções, por mais ilógicas e destrutivas que fossem.

Com cinco troncos de árvore, ela ergueu uma fogueira rudimentar em formato de cabana e colocou o aparelho bem no meio das chamas. A fumaça preta e tóxica subia, manchando e entortando o chassi do celular. Ela o “assava” com a convicção de que aquilo iria melhorar algo, enquanto eu assistia, paralisado e impotente, ao nosso único meio de comunicação sendo deformado e derretido.

Por que, mesmo diante da destruição iminente, às vezes preferimos queimar as pontes de contato a permitir que alguém nos ajude a consertá-las?


A Maçã de Areia e a Assimetria do Afeto

Deixamos as cinzas lógicas para trás e começamos a caminhar. No trajeto, encontramos um pacote de maçãs aberto, largado pelo chão. Um pouco mais à frente, passamos em frente à minha própria casa. O momento pareceu oportuno; avisei que subiria rapidinho para pegar mais algumas frutas para nós.

Quando desci de volta para a rua, estava mastigando uma das maçãs, mas a física do sonho a havia corrompido. A textura estava completamente errada — a fruta fragmentava-se na minha boca como areia seca, sem sabor, sem nutrição, sem trazer qualquer satisfação. E, num eco doloroso, percebi que o vazio não estava apenas no paladar.

Ela não me esperou.

Levantei os olhos apenas a tempo de ver a silhueta dela desaparecendo ao virar a esquina, engolida pela rua distante. Deixou-me para trás sem um segundo de hesitação. Comecei a correr desesperadamente para alcançá-la, mas o caminho estava subitamente deserto. Uma tristeza avassaladora, densa e sufocante atingiu-me em cheio, enquanto um pensamento amargo ecoava pelas paredes da minha mente:

“Poxa, será que só eu espero por ela? Sou apenas eu que dou a devida importância a ponto de olhar para trás e conferir se ela está me acompanhando? Ela simplesmente vai, sem nem ligar se eu estou ao seu lado…”


A Luta Cega no Meio do Caos

Mesmo com o peito esmagado pelo abandono, não desisti da busca. Continuei me embrenhando pelo caminho até me deparar com um colapso da realidade: uma cena de puro caos e terror. Uma mulher e uma criança gritavam em desespero absoluto, encurraladas por duas feras imensas — um leão e um cão de porte colossal, um híbrido bizarro que exalava morte.

No meio daquela carnificina iminente, vi uma garota passando perto. A fisionomia era idêntica à da minha parceira. Gritei a plenos pulmões, rasgando a garganta para avisá-la e protegê-la do massacre, mas a garota simplesmente me ignorou e continuou a andar, impassível.

O som da minha voz, no entanto, não passou despercebido pela morte. O leão cravou os olhos em mim e avançou. Em um salto impulsionado pelo terror, consegui subir no capô de um carro abandonado. Ao meu redor, pequenos gatos domésticos encolhiam-se e miavam, apavorados sob a sombra do predador implacável.

A fera investiu contra o metal. Eu me vi lutando com todas as minhas forças, empurrando a cabeça do leão, sentindo o peso do animal e resistindo ferozmente para não ser puxado por aquelas garras letais.

Mas a verdadeira tragédia daquela cena não era a ameaça das presas afiadas rasgando a minha pele. A dor mais profunda, cruel e humilhante do pesadelo era perceber que, mesmo no epicentro do caos, enquanto eu lutava desesperadamente pela minha própria vida e afastava um monstro para não ser devorado… os meus olhos continuavam varrendo as ruas freneticamente.

Eu ainda procurava por ela.