Tudo começou no território seguro e familiar do cotidiano. Estávamos em três, caminhando pelos arredores conhecidos do meu domínio: um antigo mentor, M., e eu. Nossa missão era procurar algo específico — um objetivo que a lógica do sonho convenientemente apagou da minha memória assim que despertei. No entanto, o que encontramos foi uma anomalia cravada no meio do cenário urbano.
Na esquina, dividindo o espaço com o comércio de sempre, a calçada e o asfalto haviam cedido lugar a uma formação geológica impossível. Era uma fonte termal natural, brutalista e mística, idêntica às caldeiras fumegantes que se encontram em paisagens de fantasia gélida. Cercada por grandes blocos de pedra rústica, a água quente exalava um vapor denso que criava um santuário isolado e hipnótico no meio da rua. Meu mentor estacionou de um jeito atípico, uma manobra cujos motivos também se perderam na névoa do subconsciente, e nós decidimos entrar.
O Colapso da Fronteira e o Evento Ancestral
No exato momento em que meu corpo tocou aquela água quente, a fronteira da realidade colapsou.
Fui subitamente transportado para uma dimensão alternativa, um espaço vasto que sediava o que compreendi ser um grande encontro da Linhagem Antiga. A caldeira única da esquina havia se multiplicado em várias fontes termais impressionantes, dispostas em diferentes altitudes, formando degraus sequenciais como verdadeiros níveis de progressão.
A atmosfera do lugar era densa e sagrada. A experiência de estar naquelas águas era uma amálgama surreal: tinha a introspecção profunda e visceral de um ritual de expansão da consciência, a melancolia contemplativa e transformadora de uma travessia sem volta, e o peso letal de uma catarse. Estávamos mergulhando, literal e figurativamente, em profundezas emocionais e histórias de gerações passadas.
Durante o rito, o nível da água começou a subir de forma massiva. A mudança no ambiente era drástica, mas, ao olhar ao redor, vi que as entidades matriarcais permaneciam absolutamente plenas. Elas habitavam aquele espaço com uma naturalidade ancestral, respirando e existindo em meio à inundação como se a água fosse a extensão de seus próprios corpos, perfeitamente serenas diante da imensidão que nos engolia.
A Esfera Colossal e a Asfixia
Para mim, o que começou como uma imersão reveladora rapidamente se converteu em uma armadilha.
De repente, percebi que não havia mais superfície. Na minha percepção onírica, o ambiente havia se fechado em uma colossal esfera de líquido quente, e eu estava preso no centro dela. O ar me faltou. O pânico de não conseguir respirar tomou conta do meu corpo, rompendo a paz do ritual.
Minha única reação instintiva foi tentar nadar freneticamente em busca de uma saída, de um bolsão de ar, de qualquer ruptura naquela prisão líquida. Mas era inútil. A física daquele lugar jogava contra mim: quanto mais eu me debatia e nadava em direção a uma superfície inexistente, mais rápido meu limite de oxigênio era consumido.
Eu estava afundando no próprio ambiente em que elas flutuavam com facilidade. O fato de eu morrer afogado repetidas vezes, transitando entre esses múltiplos degraus sem conseguir decifrar exatamente o que a imersão exigia de mim, transformou a reverência inicial em um terror sufocante.
Acordei com o peito pesado, puxando o ar do meu próprio quarto, ainda assombrado pela imagem daquelas águas profundas e pela paz inabalável daqueles que já nasceram sabendo respirar dentro delas.