BODY HORROR 2026.06.04 | 04:19

As Entranhas e o Diagnóstico

O cenário era a minha antiga escola, mas apenas em essência. A arquitetura havia sido completamente transmutada: os corredores e salas de aula eram agora estruturas de um modernismo impecável, limpo e bem desenvolvido. Eu estava lá, rebaixado novamente à posição de estudante, assistindo à primeira aula do dia.

O ambiente, no entanto, era tóxico. Fui forçado a dividir o espaço com pessoas que, na minha vida de vigília, eu repudio profundamente. A tensão logo escalou para uma discussão fútil e vazia. A exaustão mental bateu rápido. Decidi que não jogaria aquele jogo. Abandonei a interação, levantei-me e saí da sala, deixando todos os meus pertences para trás.

O Declínio Biológico e a Masmorra

Foi no corredor que a sensação começou. Não era uma angústia emocional, mas um declínio puramente físico. Um incômodo profundo e visceral, como se a minha própria biologia estivesse falhando, avisando-me de que eu estava, segundo a segundo, morrendo aos poucos.

Guiado por esse mal-estar, procurei um banheiro. E foi aí que o contraste arquitetônico do sonho se revelou de forma brutal. Em meio àquela escola ultramoderna, o banheiro parecia ter sido arrancado dos séculos XVIII ou XIX. Era escuro, rústico, cercado por pesadas grades de ferro e pedras, como as entranhas de uma prisão antiga.

Eu não estava ali para fins fisiológicos. O incômodo no meu abdômen atingiu o ápice e, de forma inexplicável e grotesca, senti algo se desprendendo de dentro de mim. Pedaços do meu próprio interior começaram a sair. Reconheci o que pareciam ser tripas e algo muito semelhante a um pâncreas.

Mas o terror onírico não parou por aí. Junto às císcera, expeli uma mão humana. Ela estava completamente machucada, aberta, com a pele dissecada e separada da carne.

Apesar da cena digna de um pesadelo de terror corporal, a lógica do sonho se manteve inabalável: eu tinha a certeza de que aquelas partes eram inegavelmente minhas, e que a ausência delas era o que estava me matando.

Com uma calma mórbida, levei as vísceras e a mão esfolada até a pia, lavei tudo cuidadosamente sob a água daquela masmorra e ensaquei meus próprios órgãos.

O Veredito Clínico

Na porta, encontrei um médico que estava de saída. Desesperado pela sensação contínua de morte iminente, parei o homem e pedi a recomendação de um especialista em pâncreas. A pressa do médico desapareceu na hora, substituída por uma curiosidade clínica intensa.

Ele me pediu para ver. Abri a sacola e revelei os órgãos lavados.

Fascinado, ele chamou os outros médicos do setor. Em poucos instantes, eu me vi no centro de uma roda de jalecos brancos, relatando meu caso enquanto eles analisavam os pedaços que caíram de mim. Quando examinaram a mão esfolada, a junta médica pareceu chegar a um consenso. Um deles murmurou em tom de análise técnica, como se fizesse todo o sentido do mundo:

- “Uma mão humana… parece que ele sempre usou a mão de forma incorreta.”

O diagnóstico bizarro e acusatório ecoou na minha mente enquanto o incômodo físico se tornava insuportável. A vida parecia finalmente escoar pelo espaço vazio que aqueles órgãos haviam deixado. E, no pico dessa sensação de morte lenta e esvaziamento…

Eu acordei.